ELINASE
VOL. 1N 7
2021
NA LIRA DAN
a EXDEDICNC
LAUDELINAS
VOLUME 1. NÚMERO 7.2021
ISSN 2675-6803
SELO EDITORIAL MIRADA
RECIFE - PERNAMBUCO
EDITORA CHEFE CAPA
Taciana Oliveira Fani Feldman por Águeda Amaral.
CONSELHO EDITORIAL EO POCDAL ISO
Argentina Castro Fani Feldman por Águeda Amaral
Liliana Ripardo (p.14)
Taciana Oliveira o
Agueda Amaral (p. 46-47)
BESIGNER EDITORIAL Picnic on the Esplanade, Boston
Rebeca Gadelha (1973) por Nan Goldin (p. 14-15)
Untitled (from Rapture) (1999) por
Shirin Neshat (p. 34-35)
Marcados (1981-1983) por Claudia
Andujar (p. 49)
“
“Eu não tereia minha vida reduzida. Eu não vou me curvar ao
capricho ou à ignorância de outra pessoa.”
Bell Hooks (* 25.09.1952 + 15.12.2021)
A JIN E TR
APRESENTAÇÃO
Taciana Oliveira
Laudelinas se solidifica como um espaço de resistência, uma revista que abraça a
causa feminista em sua diversidade de pautas. Nela ratificamos nosso compromisso
com a democracia, o meio ambiente e os movimentos sociais.
Convidamos vocês para a leitura da nossa última edição do ano: uma publicação
conduzida por vozes atuantes na sua profusão de gêneros e formatos artísticos. Em
um tempo pontuado por ataques às instituições públicas e ao bom senso, combater o
fascismo é, sobretudo, respeitar e preservar nossas identidades.
A artista mexicana, Frida Kahlo, destacava: A revolução é a harmonia da forma e
da cor e tudo está e.se move sob uma única lei: a vida. Ninguém se aparta de ninguém.
Ninguém luta por si mesmo. Tudo é um, um é tudo.
Somos todas Laudelinas.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
MULHERES-ÁRVORE
DENTRO DE CASA
Adriane Garcia
ENTRE SOBRAS E MIGALHAS:
UMA IDENTIDADE DE FOME
TRAVESTI
Uma Reis Sorrequia
QUEM TEM MEDO DE
UMA ESCRITORA LÉSBICA
Dia Nobre
[DUM LUGAR ÍNTIMO
DO ESPANTO]
POÇÃO INSUSTENTÁVEL
calí boreaz
Bruna Sonast
SUGESTÃO DE LEITURA:
AS VOZES DA LIBERTAÇÃO
Patrícia Gonçalves Tenório
10
12
+3
16
21
a
24
25
NIHIL
AGULHA
SER- P-ENTE
Barbara Assim
OBSESSÃO
Alê Motta
É MENINA
Carla Guerson
MEA CULPA
Milena Martins Moura
TRECHO DO LIVRO
“O DIÁLOGO”
Luizza Milcezanowski
QUASE TARDE
Germana Accioly
PARTICIPARAM DESTA
EDIÇÃO
28
32
33
30
31
34
36
38
42
MULNERES-ÁRVORES'
Adriane Garcia
Queremos estar tão verdes
Que os macacos pulem em nós
De galho em galho
Que as formigas subam em nós
Arranquem nossas folhas
E levem para suas colônias
Nós desfolhadas
Aguardaremos a próxima chuva
E com alegria daremos brotos
Ao mundo dos pássaros
Ao mundo dos répteis e
Dois cogumelos nascerão em nossas
[bocas
Seremos verdes e mulheres
Até mesmo os homens
Tendo espalhado tanto cinza
Seremos verdes e úmidas
Feito os sapos que visitarão os nossos
[dedos
Feito as cobras-cipós enroladas em
[nossos troncos
Não teremos qualquer aflição
Quando formos verdes
E nos nascerem frutos cor-de-rosa.
* “Mulher-árvore” e “dentro de casa” são dois poemas do livro Estive no fim do mundo e lem-
brei de você (Editora Peirópoles, 2021)
DENTRO DE CASA
Quando o pantanal queimou Nas fotografias que chegavam
Quando o pantanal foi queimado Eu omitia aquelas
Tive que mostrar para minha filha Que mais nos feriam
Cada onça recuperada
Eu omitia aquelas que
Tentei esconder, mas a fumaça Nos envergonhavam
Desceu do Mato Grosso Como raça.
Até que deixou cinza
Belo Horizonte
a Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Hori-
zonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio
Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome
do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes
(ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem
(col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux,
7 2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemória dos bois
P (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, (ed. Caos &
Letras, 2020) e Estive no Fim do Mundo e lembrei de você,
(ed. Peirópolis, 2021).
EN RE GOBRÃO
E MIGALHAS:
UMAS LDENTIDADEÇDE ron
Uma Deis Storrequia
Toda noite, enquanto prepara o jantar, Dona Maria escuta sua filha dizer:
- Estou morta de fome!
A menina vem chegando da rua, batendo o portão, e já vai logo gritando aos qua-
tro cantos que está faminta. Ainda que sua mãe lhe prepare um banquete parece que
nunca lhe é suficiente. O prato tem de tudo um pouco: arroz, feijão, carne, legumes,
salada e farofa. Comida caseira de gente humilde. Volta e meia mainha lhe faz um
agrado e prepara uma sobremesa ou suco natural como ela gosta. Já ajeita a marmita
dela também para o dia seguinte. Elas assistem qualquer coisa na T'V, proseiam sobre
seus dias e riem juntas - é jeito delas de amortecer o cansaço do dia a dia. Antes de
irem deitar Dona Maria e sua filha preparam juntas um chá e beliscam alguns biscoi-
tos.
De manhã o saco sem fundo que é sua filha acorda com o estômago roncando e
dizendo:
- Mãe! Estou com fome!
Dona Maria vai montando a mesa do café com o que tem, com o que vai encon-
trando. A água do café está fervendo. Ela aproveita para ir arrumando a bolsa, pois
tem que ir trabalhar. Coa o café rapidinho e vai saindo:
- Filha, o café tá mesa. Tchau. Fica com deus viu.
Amélia está na cama lutando contra o sono quando ouve sua mãe se despedir.
Deveria ter despertado meia hora antes, mas foi prorrogando o alarme em 10 e 10 mi-
nutos. Levanta de supetão, pois conhece a menina preguiçosa que é. Se não pular da
cama, provavelmente, irá se atrasar como sempre. Enrolada que só ela.
Após se arrumar, meio que sem tempo, Amélia senta para tomar o café que sua
mãe deixou preparado. Reclamona, não bebe o café já morno. Come um pão com
manteiga, um pedaço de bolo e busca algo para beber na geladeira. Tem um restinho
de suco da janta de ontem. Pega uma maça para ir comendo no caminho, confere a
bolsa, vê se tá tudo certo e assim começa seu dia.
Amélia é uma travesti.
TRAVESTI
Uma Deis Sorrequia
RR E obra sem término
O ser travesti flui
Estou travesti
E Quando tu vê
Não nasci travesti
Já não é a mesma
A sociedade me gritou: travesti!
: Não existe UMA travesti
Me identifiquei
Pois cada travesti é UMA
; Somos uma legião
Estou me fabricando
Travesti é processo
Uma Reis Sorrequia nasceu e se criou em Sorocaba, in-
terior de São Paulo. Morou em Curitiba (PR), Córdoba
(ARG) e Recife (PE), e, atualmente, mora em São Pau-
lo capital. É autora do poema “Eu era uma menina e não
sabia”, publicado pela Vivara Editora Nacional, na obra
Antologia Poética, Sarau Brasil 2019. Fúria Travesti é o
brado de Lohana Berkins que convoca todas as travestis à
luta. Uma está arte-educadora no Museu da Língua Por-
RE, | tuguesa. Mestranda em Comunicação e Práticas de Con-
sumo COM ei SP). Cursando o aperfeiçoamento em Infâncias e Direitos
Humanos (CLACSO). Licenciada em Geografia (UFSCar-So). Travesti artivista. É
viciada em café, apaixonada por padarias, ama vinho e é chocólatra. E-mail para con-
tato: uma.sorrequia(Dgmail.com. Instagram: (Dfuriatravesty.
x
QUEM TEM MEDO DE' UMA
ESCRITORA LÉSBICA?
Dia Nobre
Foi a partir da literatura que o femi-
nismo se tornou uma questão importan-
te para mim. Apesar de ter sido leitora
de Clarice Lispector na adolescência e
meu livro preferido ter sido escrito por
uma mulher (A casa dos espíritos, Isabel
Allende), quando eu pensava sobre litera-
tura vinham à minha cabeça, majoritaria-
mente nomes de homens/escritores.
O problema se agravava quando eu
considerava a produção de mulheres ra-
cializadas e mulheres LBTQIAP+, ou
seja, mulheres que estão fora da bolha
heteronormativa-branca-cisgênera-rica-
-cristã: “A lésbica de cor não é somente
invisível — ela não existe”, diz Gloria Al-
zandua, escritora chicana (2000, 229).
Quando fazemos um recorte mais
específico, como o da sexualidade, por
exemplo, o apagamento se adensa. Re-
gina Dalcastagné em uma pesquisa de
fôlego apresentada no livro ”Literatura
Contemporânea Brasileira: um território
contestado” (2012), demonstrou, em uma
análise que envolveu 258 obras publica-
das ao longo de 14 anos (1990-2004), que
72,7% da autoria era masculina. Quando
se tratava de representatividade LGBT,
apenas 3,9% eram ou apresentavam per-
sonagens homossexuais, sendo que, entre
estes, 79,2% eram de homens gays.
Quando eu proponho um recorte sobre
esse grupo, de mulheres lésbicas ou sáfi-
cas, eu estou apontando a falta de repre-
sentatividade dentro da literatura. Esses
são os modos como a dominação mascu-
lina se manifesta e muitas pessoas sequer
questioham essas estratégias de controle.
As mulheres foram historicamente pri-
vadas de uma existência política e esse
apagamento se agrava quando tratamos
de grupos que escapam às normativida-
des impostas: “As lésbicas tem sido his-
toricamente privadas de uma existência
política, por sua “inclusão” como versão
feminina da homossexualidade masculi-
na, porque ambas são estigmatizadas, é
apagar mais uma vez a realidade das mu-
lheres” (Rich, 2019, 66).
Até quando existe certa representa-
tividade homossexual, esta prioriza os
grupos masculinos, daí a importância de
diferenciar a sexualidade feminina da
masculina, como reforça Adrienne Rich.
Por isso, a necessidade de ainda marcar-
mos essa produção específica: “há uma
lacuna no campo literário quanto à auto-
ria e representação da homossexualidade
de mulheres na literatura, lacuna promo-
vida por esquecimentos e apagamento”
(Polesso, 2018, 2).
Ao considerarmos a sexualidade das
autoras, retiramos essas mulheres do lu-
gar de não-existência e, principalmente,
questionamos essa visão mística da arte
(ainda seguindo o pensamento de Rich)
que faz com que ela seja considerada
como dom e vocação e a destitui de seu
caráter político: “O texto do poema não
deve ser lido como algo separado da vida
cotidiana [,,,] A poesia está em continui-
dade histórica e, não, acima da história”,
nos diz Rich (2019, 68)
Na minha adolescência, vivida nos
anos 2000, eu não tive referências de au-
toras lésbicas uma vez que as obras de
autoras assumidas não eram difundidas.
O meu primeiro contato com uma autora
que tratava en passant sobre relaciona-
mentos homoafetivos foi com a escritora
Ana Cristina César (1952-1983) que era
bissexual. Acredito que a dificuldade de
encontrar essa experiência na literatura,
bem como nas artes de modo geral, di-
ficultou o meu próprio movimento de
autodescoberta. A falta de referências
na minha adolescência, fez com que eu
crescesse apenas com modelos hetero-
normativos de família e relacionamentos
que conflitavam com meu modo de ver o
mundo. 7
Se pensamos o que define a literatura
lésbica, creio que posso dizer que é uma
questão de autoria, ou seja, é uma litera-
tura produzida por autoras lésbicas que
criam recursos de identificação ou repre-
sentatividade para outras mulheres lésbi-
cas.
Não se trata mais somente de escrever
sobre o amor entre as mulheres, saídas
de armários e descoberta da sexualidade,
temas comuns nas obras de autoras pio-
neiras como Cassandra Rios (1932-2002),
Vange Leonel (1963-2014) e Karina Dias
(1979) que foram extremamente necessá-
rias para a pavimentação dessa literatura
que hoje busca naturalizar a existência
lésbica.
Hoje, no mercado contemporâneo
voltado para as autoras LBTQUIAP+ se
destacam autoras como Natalia Borges
Polesso (1981) cujas obras dão protago-
nismo às personagens lésbicas, mas sem
fazer disso o cerne das tramas. É tam-
bém o caso de Desmemória, romance da
escritora Thalita Coelho (1991), semifina-
lista do Prêmio Jabuti em 2021 que narra
a história de Vic, uma mulher capaz de
roubar as memórias daqueles que o cer-
cam, prejudicando a saúde destes, inclusi-
ve da sua companheira, Ana Cristina que
no início da narrativa está em coma.
No Brasil, o Clube Lesbos criado em
2017 por Sol Guiné e Lidia Bizio na cida-
de de São Paulo surge como um espaço
importante para a leitura de obras de au-
toras lésbicas e hoje possui nove clubes
em várias capitais do Brasil. A existência
do clube que já teve como mediadoras,
autoras como Cidinha da Silva e Cecília
Floresta, demonstra como é importante
haver espaços seguros para mulheres que
querem ler e estudar obras com as quais
se identificam.
Eu fui mediadora do Clube Lesbos
na cidade de Petrolina, Pernambuco em
2019 e uma das coisas possíveis de per-
ceber nos encontros era o sentimento de
acolhimento e representatividade que as
participantes experimentavam. O Clube
acabava funcionando como um espaço de
compartilhamento de experiências que
transcendiam a questão da descoberta.
Ali eram problematizadas a lesbofobia e o
preconceito, mas também questões como
a maternidade, corpo, desejos, afetos, etc..
A literatura é política.
Ao ler mulheres LBTQUIAP+, eu
marco o meu lugar de existência. Ao prio-
rizar a escrita dessas mulheres eu estou
dizendo ao mundo: o seu projeto de nos
apagar não venceu.
Estamos aqui. Existimos. Resistimos.
Aceitem.
Referências
ALZANDUA, Gloria. Falando em lín-
guas: uma carta para as mulheres escri-
toras do terceiro mundo. Ver. Estudos Fe-
ministas. ANO 8, 1º SEMESTRE 2000.
Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/
index.php/ref/article/view/9880
DALCASTAGNÉ, Regina. Literatura
Contemporânea Brasileira: um território
contestado. São Paulo: Editora Horizonte,
2012.
POLESSO, Natalia Borges. Geografias
lésbicas: literatura e gênero. CRIAÇÃO
& CRÍTICA, n. 20, 2018. Disponível em:
https:/www.revistas.usp.br/criacaoecriti-
ca/article/view/138653
Entrevista com Natalia Borges Poles-
so no Universa. Disponível em: https://
www.uol.com.br/universa/noticias/reda-
cao/2021/05/26/autora-de-7-livros-com-
-personagens-lesbicas-rejeita-ideia-de-te-
matica-lgbt.htm?cmpid=copiaecola
RICH, Adrienne. Heterossexualidade
compulsória e existência lésbica. Rio de
Janeiro: A Bolha Edições, 2019.
Dia Nobre é escritora e Ph.D em História. Natural do
Cariri cearense, atualmente trabalha em Petrolina, Per-
nambuco, como professora universitária desenvolvendo
projetos ligados à literatura, história, lesbianidades e fe-
minismo. Publicou dois livros de não-ficção, O teatro de
Deus (Ed.UFC, 2011) e o premiado Incêndios da Alma,
(Multifoco, 2016), tendo recebido três prêmios por este
último, incluindo o Prêmio Capes de Teses (2015). Seu
| primeiro livro de poemas, Todos os meus humores, foi
publicado em 2020 pela Editora Penalux. Participa ainda das Antologias Cole-
tânea VISÍVEIS — I Anuário Filipa Edições e Antes que eu me esqueça — 50 au-
toras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021). Em 2021, lançou o li-
vro de ficção No útero não existe gravidade, finalista do Prêmio Mix Literário.
DEM [UGARVINEIMO
DO ESPANTO | *
cali boreaz
no Vazio pachorrento que te fura
por ali passa a centelha
e enquanto passa
dilata-o
* “[Dum lugar íntimo)” e “Poção Insustentável” são dois poemas do livro do livro tesserato
(Caos & Letras, Brasil, 2020)
21
POÇÃO INSUSTENTÁVEL *
quase que passo por uma poça
uma pequena poça de água
num qualquer meio de rua da cidade
tantos de nós contemplam rios o mar a chuva
quantos contemplaram um dia uma poça
escura suja, € rasa
mesmo assim espelha meu rosto, a poça
sinto generosidade nesse pequeno gesto
e então demoro-me em sua toda pequenez
em seu silêncio esquecido aos pés da cidade
em seu contorno que se sabe improvisado
vejo então que é a poça que me observa
rios mar chuva passam
ex-correm a cada instante que passa — não a poça
a poça demora-se conserva-se é
vejo que chega a olhar-me com altivez
uma profundez reversa
vejo que me analisa
águas que fluem não fazem esse tipo de coisa
não estão nem aí
quase desvio o olhar, mas mantenho
quero ver até onde vai a rasa poça
que me atrasa assim
a bicicleta passa e liberta a poça seja como for,
que fica do meu tamanho estou aqui e
avanço não posso
sacudindo a poça de mim
ou — é a poça que me sacode de si mais adiar
e o mundo é que recuou isso
5. * calí boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direi-
| N to, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco.
=" Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua
e literatura romenas e tradução literária. No virar de
2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para
viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e
ao ofício do teatro. Traduziu do romeno os romances
O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal, 2010], de
Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus,
Brasil, 2012], de Mihai Zamfir. Tem dois livros de poesia: outono azul a sul [ed.
Urutau, Portugal & Brasil, 2018/19], um relato poético do exílio e da clandes-
tinidade, com posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António
Martins-Ferreira; e tesserato [ed. Caos & Letras, Brasil, 2020], uma reunião de
tentativas poéticas acerca da suspensão e do deslocamento na imobilidade. Seu
conto islandeses integra a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle [2019].
Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, por-
tuguesas, galegas e mexicanas, bem como em exposições de Portugal e da Índia.
Criou e apresentou em 2020, para o Midrash Centro Cultural, o programa online
de poesia atual ainda somos muito novos para escrever estes poemas. Interpreta
seus poemas em espetáculos poético-musicais — jam poetry sessions — e em for-
ma de videopoemas. [casas virtuais: caliboreaz.com | instagram.com/caliboreaz]
Ê
24
Eruna tonast
Ela olha nos olhos. Aqueles olhos de quem olha de dentro de uma canoa sobre águas
paradas, como se fossem o próprio tempo. Naufrágio. Os sentidos se perdem, mas a
gente nunca sabe quando. É assim, cai em si, e já não estão mais lá. A mulher pensa
que a cidade já se esgotou, é preciso partir em novas embarcações. E ainda assim, e
por isso mesmo, fica, na areia da praia, olhando os olhos que olham de dentro de uma
canoa sobre águas paradas, nessa direção absurda do não saber por onde começar.
Aqui, as águas são contrárias. E é que dizem que se encontrar é a única forma de amor
válida, mas ela mesma só se perde, entre os tantos (des)encontros de estar. A mulher
quer uma bússola, uma rota, uma solução, que jogue no mar cada uma de suas pala-
vras.
E o mar engole,
para que os olhos já não vejam nada, na esperança e no horror, de quem só sabe olhar
pro fundo.
Bruna Sonast é escritora independente. Vive na e pela poe-
sia dos dias, seguindo os (des)caminhos do sul, do aqui-a-
gora. Publicou vestígios em 2020, com nova impressão em
2021. Organizou e participou com poema em baRRósas:
memória e poesia (Selo Mirada, 2021).Tem graduação em
Letras e mestrado em Linguística Aplicada, pela Univer-
sidade Estadual do Ceará. Integra a coletiva de mulheres
“baRRósas”.
SUGESTÃO DE LEITURA
END VR Z dese
LIBERTAÇADE
Patricia Goncalves Tenório
Em março de 2020, inaugurei o
curso on-line e gratuito Estudos em
Escrita Criativa com o mergulho em
escritores ingleses, em especial, O
conto da aiaí, de Margaret Atwood.
Narrado em uma sociedade distópi-
ca, mas que nos traz — de maneira apavo-
rante — muitos dos elementos do mundo
atual, Atwood nos apresenta a República
de Gilead, depois do golpe que matou o
presidente dos Estados Unidos e a maioria
do Congresso americano. O grupo ditador
e terrorista é católico e tem como tônica
afastar as mulheres do mercado de traba-
lho e deixá-las apenas para serem mães e
esposas dedicadas. Por causa de vazamen-
tos químicos e radioativos, a maioria das
mulheres tornou-se estéril, e aquelas em
condições de procriar foram transforma-
das em aias, pertencentes aos comandantes
do grupo terrorista, perdendo sua identi-
dade (até mesmo o nome, por exemplo, a
narradora deixa de se chamar June Osbor-
ne para ser Offred, ou seja, De Frederic
1- Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro... [et
al.). Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, laranda Barbosa... [et al.]. Apresentação:
Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria
Cardoso, MarinaPresbítero. Design/Diagramação: RebecaGadelha. 1ºed. Recife: SeloMirada,2021.
2-ATWOOD,MargaretEleanor. Ocontodaaia. Tradução: AnaDeiró.RiodeJaneiro: Rocco, (1985in)2017.
25
26
Waterford, o comandante proprietário) e
tendo como único objetivo de vida gerar
filhos para as famílias às quais pertencem.
Assistindo ao Fronteiras do Pensamen-
to de 27 de outubro de 2021”, maravilhei-
-me com a lucidez dessa canadense de 81
anos, com mais de sessenta livros publica-
dos es(ainda) atualmente professora de Es-
crita Criativa. Ela afirma, de maneira bem
humorada, que é muito tarde para mudar
de profissão. Mas o que mais nos interessa
para esta breve resenha é a proximidade do
pensamento de Atwood com o dos textos
das quinze escritoras da coletânea de contos
e poemas Artemísias: vozes de libertação.
Organizado, entre outras, por Iaran-
da Barbosa, Artemísias nos apresenta ca-
sos dolorosos de abuso sexual, de todas
as formas possíveis e (in)imaginárias. A
mulher como temerária, afirma Atwood na
palestra, e por isso abafada, e violentada,
e subjugada à opressão patriarcal da nossa
sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de
Margaret, despossuída de qualquer direito,
não está muito longe de vários casos cita-
MIRADA
dos no livro organizado (e um dos contos
escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres
seguindo o regime patriarcal e condenan-
do a nós próprias mulheres, por causa de
roupas ousadas, de vida sexual libertária,
de se dedicar a uma profissão normalmen-
te exercida por homens. Mas a escrita in-
depende de gêneros para nos salvar. Em
“Teus continentes e os meus”, resenha de
setembro de 2021 desta coluna “Dois livros
por mês”, ao analisar Os continentes de
dentro, de María Elena Morán, cito o caso
3- O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PU-
CRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial,
entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi me-
diada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/
4- Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis
Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.
na vida real de uma pessoa amada que,
adoecida psiquicamente, teve de ser inter-
nada em uma clínica. Isso tudo narrei nos
originais do livro de apenas poucas leitoras
(três para ser exata), no intuito de preser-
var a pessoa amada, Caminhos manchados
de não. O que não mencionei na resenha
do livro de Morán é que a minha pessoa
amada também sofreu abuso, tendo como
consequência o adoecimento psíquico.
Quantas mulheres que conhecemos,
inclusive nós mesmas, precisam chegar
ao fundo do poço, inclusive tirando a pró-
pria vida, para que façamos algo genero-
so umas para as outras? Para nos prote-
germos? Para nos dar carinho, e força, e
qualidade literária com técnicas refina-
díssimas (transição de vozes narrativas,
transformação em linguagem das carac-
terísticas de personagens, fluidez entre
os gêneros em um mesmo texto) que en-
contrei no livro de tantas mãos dadas que
se chama Artemísias e ecoar, nos quatro
cantos do planeta, a nossa voz de mulher?
Patricia Gonçalves Tenório é escritora,
vinte livros publicados, sendo um deles,
A baronesa (2020), em formato vídeo-
podcast. Recebeu prêmios no Brasil e
no exterior por as joaninhas não mentem
(2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falas-
se (2012), A menina do olho verde (2016)
e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre
em Teoria da Literatura (UFPE) e douto-
ra em Escrita Criativa (PUCRS), ministra
desde 2016, cursos on-line e presenciais
do grupo de Estudos em Escrita Criativa.
27
28
ninIiL
ELarbara Assim”
Almas absortas em copos
Tragando goles de desterro
(pausa aprecia gotas translúcidas)
Profusas letras
Versos me comem
As cerejas em bolos
Jorro todas no vaso florido que resta à tua mesa queimada
(Cigarro e sol)
Travessões que passeiam solitários:
Uns dizem ser loucura
vociferando aos olhos
“Derramem!”
(pausa deglute mais gotas)
Zappa ao fundo
1 Palavra do latim que significa nada, coisa nenhuma.
2 Barbara Assim é o “pseudônimo” de Barbara Caroline Gonçalves, poeta alagoana pelo
amor e pela dor.
Desconcertando particulares entes
Raízes à mostra
páginas preteridas
E cada centímetro
De celulose exposto
(nada será de proveito, a não ser ao vaso)
Movimentos circulares
Inerentes ao copo
Despedaçando o leito
Serpentes quebrando ossos
(Nada demais)
Dei de parar o assombro
Dei de correr às meias luas, meio vestida
Mas nua de colares
Coroas estúpidas
Se sobrepõem aos goles
Cospes no chão
aquilo que abandonas agora
Deixando-o lustre de memórias opacas
Orifícios preenchidos com languidez
Chovendo risos
Solo fértil para ser só isso
29
30
(em dias secos)
Dois demônios
Daemon” travesso
Avesso
De verso
(diverso)
Ela virá rir na tua cara!
“Lay, lady, lay!” — você berra em desespero
Osso, açafrão e giro solvendo
Sustenido dos deuses em uníssono
Nada transcende o cromatismo de nosso escuro
Rupias” não pagam as letras tatuadas
Alma
(esse antiquário em suspensão)
Cabra cega em Nova Déli
Malha ferroviária sem tradução possível
Impondo altares ao Taj Mahal
Que venerem o suficiente
3 Do grego, significa demônio, gênio, espírito.
4 Música de Bob Dylan.
5 Moeda oficial da Índia.
o torpor impresso em teus olhos
Todavia, há um Gandhi cansado em minhas ruas
Embrulhando cascalhos ao peito
E derretendo a aurora
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AGULHAS
Desalinhando botões de cor
Fazendo abrir
Asas
bo
Ca
se
ta
O
Estrondo
Visceral
O
São vagas
Entes
Arrancar de dentes
As escondidas
Um pedido de obediência
à mente
“Cachorro bobo, bonito”
Ausência de respostas
MriM [EN IE
Eu sou o parêntese
Guardo o que se subentende
O que o beiço cala
Mas a língua sente
A bala que perfura
deixando o quente
Querendo a beleza
Que, prostrada, doente
Estendida na mesa
Varal de serpente
par-Ente-5I
Barbara Caroline (Barbara Assim) é uma poeta de Maceió.
EE Caos (grupo universitário que tem promovido a arte e suas pos-
sibilidades desde o início da pandemia, em 2020). Está lançando
em breve seu primeiro livro, Palavras pesadas carregadas por
E borboletas, onde expõe seu espírito notívago e visceral com uma
sutileza incomum. O livro deve ser lançado no primeiro semes-
E, tre de 2021 pela Edições Parresia e atualmente a escritora está
no processo criativo de seu próximo livro de poesias e em projetos de escrita colaborati-
va. À poeta escreve com um teor de “caos e fogo” singular, como diria o também poeta
e seu amigo pessoal Leo Barth, responsável pelo posfácio do referido livro da autora.
Assim sendo, desfrutamos em sua escrita o que a sensibilidade nos permite vivenciar
ao mesmo tempo sem perder a inquietude pungente de eu lírico igualmente pandêmico.
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OBSESBAÃO
Alê Motta
Eu atravessava a rua na faixa, o sinal fechado para os carros e ainda assim fui
atropelada. Por pouco não estourei minha cabeça no meio-fio. O motorista do carro
grandão que me atropelou não me socorreu e não foi encontrado.
Mas eu sei o que aconteceu. O motorista brigou com a mulher dentro do carro e
quando ela falou Quero me separar, ele berrou Vou atropelar a menina aí na frente e
a culpa é sua, você nunca vai se afastar de mim.
Faz um mês que ele me atropelou. A mulher dele foi à delegacia semana passada
e contou tudo. O cara é obcecado por ela. Quando saiu da delegacia ela foi atropelada
e morreu.
Fico pensando se o idiota já encontrou uma nova obsessão.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado
do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ.
Participou da antologia 14 novos autores brasileiros,
organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de
Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos
(Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista
Vício Velho.
É MENINA*
Carla Guerson
É menina — sentenciou o médico.
Dentro do grito que sua avó deu, a sur-
presa se misturava com a preocupação.
Menina como eu, pensei, sem saber se
era alegria ou tristeza o que escorria dos
meus olhos.
Hoje eu acho que era medo, filha.
A gente quando engravida não pensa
em muita coisa. Você quer um bebê e é
bem fácil fazer um. Quando você crescer
eu explico tudo, prometo. Aí vem o re-
sultado positivo e a gente quase que quer
pregar na testa para mostrar para todo
mundo que tem bebê ali dentro daque-
la barriga molinha de quem comeu muito
pão de manhã.
Logo a barriga cresce e todo mundo
quer passar a mão, quer saber, quer per-
guntar. É para quando? É menina? Já tem
nome? É menino? Vai ser parto normal?
Qual seu médico? Você já agendou o hos-
pital?
Acho que foi pelo excesso de pergun-
ta que eu acabei descobrindo que eu não
sabia de nada. Que ter um bebê era muito
mais difícil do que parecia, não era só fi-
car parada esperando amadurecer, tinha
um monte de coisa para decidir.
Tinha que saber o sexo e tinha que
escolher o nome, o tema do quarto, a cor
da parede. Tinha que encomendar o kit
do berço — e eu achando que ter um ber-
ço já era grande coisa. Eu também devia
procurar uma doula, fazer ginástica de
grávida, aula de parto. Escolher o hos-
pital e escrever um plano. Depois pensar
nos exames, não pode ganhar muito peso
e nem tomar coca cola. Cerveja, então,
nem pensar — mas isso eu já sabia, em-
bora tenha ouvido dizer que se for só um
copinho não faz mal.
Ah sim, e eu tinha que dormir muito.
Isso todo mundo me falava. Porque de-
pois, já viu, nunca mais vai dormir. Até
que isso era verdade, que até hoje eu não
durmo direito. Se bem que eu acho que
* Texto do livro O som do tapa, Editora Patuá (2021)
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nunca fui muito boa de dormir. Nem de
acordar.
Mas foi no dia que o médico me con-
tou o seu sexo que o meu mundo começou
a desmontar. Porque eu não sabia o que eu
podia providenciar para te preparar para
ser mulher aqui junto comigo. Eu não sa-
bia como te contar das coisas que passei
e como te ensinar o que eu nunca apren-
di. E por isso eu chorei, e ainda choro.
A primeira coisa que eu escolhi foi o
seu nome. Vai se chamar Helena, como
a minha avó. E sem querer te marquei
com tudo o que você vai carregar para
o resto da vida. Minha herança, o que
eu tenho para deixar para você, é só
isso mesmo, esse ser mulher. Mulher
como eu, como a sua avó e sua bisavó.
Sua bisa Helena corria pela casa
o dia inteiro, atendendo uns e outros,
criou seis filhos, mais um bocado de
neto e nunca — nunca — tinha um sorri-
so no rosto. Vó Lena dos braços fortes,
carregava dois meninos no colo ao mes-
mo tempo. Matava galinha, puxava bala
de coco com uma mão só. Não gritava
com a gente, porque não precisava. Só de
olhar a gente obedecia na mesma hora.
O sangue que te corre as veias tem de
Vó Lena, que virou sua bisa quando játinha
morrido. Tem também da minha mãe, sua
avó Célia, que mora com a gente até hoje
eé o seu xodó. Não sei se ela mora com
a gente ou se a gente é que mora com ela.
Mãe Célia que saiu cedo de casa para
estudar e virou professora. Criou três fi-
lhos sozinha, botou para fora o marido
alcoólatra, que ficou morando na casa
da vizinha, amiga dela. Sua avó Cé-
lia, que cuida do seu avô até hoje, de-
pois que a vizinha cansou dele e sumiu,
largando ele e os cachorros para trás.
Seu sangue tem de mim também, pe-
quena, que estou aqui tentando descobrir
como fazer para ser o que nunca achei que
teria que ser: exemplo para alguém. Me
dói saber que você carrega em si tanto de
uma mãe dorminhoca que não é forte como
sua bisa nem determinada como sua avó.
Uma mãe que não soube dizer não para o
seu pai e acabou engravidando nova de-
mais, sem nem terminar a faculdade. Que
esqueceu de dar comida aos peixinhos e
deixou eles morrerem. Uma mãe que não
preparou nada e que nem sabe de tudo
o que devia ter sido para poder ser mãe.
O que me resta é te desejar sorte. Que
você tenha em você a bisa que não conhe-
ceu e saiba que ela era brava, mas cantava
de noite para os filhos dormirem. Que se
lembre da avó, que não parava em casa,
mas que depois nos abriu sua casa quan-
do a gente mais precisou. E de sua mãe,
que não sabe ser mãe, mas que teve a co-
ragem de te assumir e de te querer, quan-
do seu pai decidiu que não dava para ele.
E menina, disse o médico. E meu
chão se abriu.
É menina e tem tanto para aprender.
Tanto para escolher. Tanto para receber.
E menina. Como eu.
Carla Guerson é escritora, feminista, ge-
miniana e a favor dos incômodos. Escre-
ve contos, crônicas e poemas e tem textos
publicados em diversas revistas literárias,
coletâneas e antologias. O conto É me-
nina integra a coletânea O som do tapa
(Editora Patuá, 2021), seu primeiro livro.
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MEA CULPA
Milena Martins Moura
cai pro lado
de pernas abertas
como bailarina
e baba sílabas molhadas.
mea culpa.
mea culpa.
a cabeça encosta no chão
com uma força que sangra.
mea culpa.
o piso quente
denuncia o calor
do sangue
e do rio de janeiro.
45 graus, uma temperatura ímpar. o
frita-se um ovo no capô.
mea culpa.
fui eu que cortei aquela árvore
* Poema que integra o terceiro livro da poeta carioca Milena Martins Moura, A Orquestra
dos Inocentes Condenados (Editora Primata, 2021). “Orquestra” foi escrito durante a pande-
mia da Covid-19 e enfrenta os efeitos nocivos da solidão e do medo provocados pelo isola-
mento social, trazendo pensamentos sobre a finitude e a fragilidade da vida, memórias nos-
tálgicas fundantes e uma discussão necessária sobre a neurodiversidade entre mulheres.
e a carne dos meus braços
no dente.
é meu o ódio quente
a cada nota assoviada
e talher balbuciando
percussão na louça.
é porque eu vim errada
a um mundo quente
e o meu rosto vermelho
chama.
mea culpa.
cai pro lado
e executa
a última pena.
se fere de morte
durante um recitativo chato.
a plateia só veio
porque era de graça.
para eles
todo infeliz é vilão:
e. ai de mim,
que vim confessar.
Milena Martins Moura nasceu no subúr-
bio do Rio de Janeiro em 1986. É poeta,
editora, tradutora e mestre em Literatura
Brasileira pela Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (Uerj). Publicou também
os livros Promessa Vazia (2011, contos),
Os Oráculos dos meus Óculos (2014, poe-
sia) e Banquete dos Séculos (edição da
autora, 2021, poesia). É editora da revista
feminista cassandra e integra as equipes
de colunistas da revista Tamarina Lite-
rária e de poetas do portal Fazia Poesia.
Tem poemas e contos em portais e revis-
tas como Subversa, Torquato, Mallarmar-
gens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Ara-
ra, Kuruma'tá, Aboio, Arribação, Totem
Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru).
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TRECHO DO “LIVRO
“O DLALOGO”*
luiZza MilcZzanowski
No início, L.C. não tinha um nome.
Seu nome era apenas Homem. Ele era o
Homem, a figura do homem. Ela o amou
como se ama um homem sem identida-
de. Quando conheceu Leonardo, não foi
no sexo que o amor se constituiu. Amou
Leonardo no primeiro momento em que
olhou para ele - como poderia ter ama-
do qualquer um. Olhou para Leonardo e
o criou. Foi ela que o criou, que criou a
relação dos dois e um amor que ainda não
existia. Foi no primeiro olhar de Leonar-
do que soube. Foi ela que criou L.C. Foi
criação sua. Ele não teria tido importân-
cia alguma se ela não tivesse precisado
criar sua importância. Em um primeiro
momento, amou Leonardo como se ama
uma borboleta. Queria amá-lo como se
ama uma folha em uma árvore. Era um
amor contemplativo - ela queria olhar
L.C., apenas olhar para ele, vê-lo à distân-
cia, talvez tocá-lo uma única vez. Era um
amor de tons róseos que corria no vento.
* O Diálogo, editora Penalux, 2021.
Um amor de olhar. Um amor irreal. Ela
queria amar, desde o princípio, algo que
não fazia parte da realidade. Queria amar
uma fantasia.
O grande problema é que Leonardo
C. se tornou real. Sua realidade trouxe
problemas que ela não soube controlar.
Não estava preparada para a realidade de
L.C., para sua existência como pessoa.
Leonardo sempre foi algo que deveria ter
feito parte apenas do Leonardo espectro,
do Leonardo-diálogo.
É mais fácil falar sobre abstrações,
sobre sensações, do que sobre o que foi
L.C. Porém, precisa pensar em Leonardo
como ser que existiu, como pessoa-
realidade. Precisa pensar em L.C. no
momento em que seus corpos existiram,
juntos, como indivíduos corpóreos. A
importância dessa realidade existe apenas
em si. Agora o segredo é só dela. Agora
não tem importância. Viu Leonardo pela
primeira vez e, nessa primeira visão, ela
o criou. Amou essa Criação, essa parte de
si mesma. L.C., por outro lado, foi pessoa
real. Existiu. E essa existência dupla
se convergiu em certo momento. Ela-
existência e Ele-existência. É assim que
duas pessoas se conhecem: como dois
planetas que colidem.
Luizza Milczanowski escreve poesia e
prosa, mais associada a gêneros híbridos
ou experimentais. Além de O Diálogo
participa das coletâneas do Prêmio Off
Flip de Literatura 2021 nos gêneros Poe-
sia, Contos e Crônica, da antologia Entre
Janelas, vol. II (2020) da Oribê e da Cole-
tânea Conpoema do concurso de poesias
Professor Roberto Tonellotti. Já colabo-
rou, ainda, com diferentes revistas literá-
rias como a Revista Philos, Intransitiva,
Subversa, Inversos, LiteraLivre, Valki-
rias, Ventania e RelevO. Escreve ensaios,
principalmente sobre Vladimir Nabokov,
autor cuja obra divulga pela página “Na-
bokovia”.
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QUASE
ARES) E
Germana Accioly
Acordei sentindo o corpo todo meio
dormente, meio vibrando.
Um -sono absolutamente profundo,
um despertar lento, relutante.
Aliás, a palavra é relutante.
Lutei muitas vezes. Insisti em perder.
Relutei por anos em aceitar. Acolher.
Refusei oportunidades, me escondi atrás
de tantos fantasmas. Meus esconderijos
quase perfeitos.
Eu, meu principal algoz, dando voz
a todos os comentários. Vestia a fantasia
alheia e dela me apossava.
Capaz de criar tantas realidades, des-
ci dos meus palcos, apaguei as luzes e me
fechei no camarim. As cortinas seguiram
abertas, sinalização para saída de emer-
gência, fuga tragicamente planejada.
Mas, por maior que seja o bunker, um
dia há que se abrir a porta e buscar água,
comida, ajuda. Por mais perfeito que seja
o disfarce, em algum momento a maquia-
gem borra, o chapéu voa, a máscara cai.
Foram muitos os passos. Primeiro, em
círculos infundados, encontrando descul-
pas vazias baseadas num sentimento em
nada parecido, mas denominado de amor.
Depois, muito depois, novos caminhos ti-
tubeantes, cambaleantes, trôpegos.
Reabilitação para a vida.
Reaprendi a respirar, a nadar nas mi-
nhas águas turvas e bravas, a amar o que
é meu. Uma passagem nem sempre linear.
Eis que hoje eu acordo sentindo dife-
rente. Acolhendo meus prazeres, reivin-
dicando minha memória, reconstruindo
minha história. Eu não sou o desenho do
passado. Eu não sou o decalque das déca-
das nostálgicas.
Bordo com palavras meus novos so-
nhos. Faço e refaço pontos que eu mesma
criei. Misturo as cores que me aprazem.
Acalmo minha pressa de viver, alimento
a fome de ser.
Não me incomoda reciclar, reutilizar
ou repaginar sentimentos. Não tenho a
avidez capitalista do novo, do exclusivo,
do todo meu. Vou trazendo na bagagem o
que ainda me apraz. Carregando o peso
que posso levar sozinha.
Aliás, esta foi a lição mais difícil de
aprender. Fazer a mala para aquela via-
gem e só levar o necessário. Passei a fazer
o exercício do minimalista. Experimentar
o pequeno como se fosse o fundamental.
O escasso, sem restrição.
Divagando e brincando com as pala-
vras, me dou conta que ainda estou deita-
da, respeitando o ritmo do meu despertar.
Quase tarde, mas ainda manhã.
Há tempo para celebrar o domingo
Germana Accioly, 49 anos, é recifense,
mãe, ativista dos direitos humanos. For-
mada em Comunicação Social pela UFPE,
trabalhou como repórter de TV, editora e
apresentadora. Tem especialização em Cul-
tura e Comunicação (AGECIF, Paris) e em
Política e Representação Parlamentar (Ce-
for, Brasília). No campo da música, estudou
piano erudito por 15 anos. Também atuou
como atriz de teatro e TV. Em temporada na
França, fez estágio na Comedie Française.
Foi assessora de comunicação da Orquestra
Sinfônica Jovem do Conservatório Pernam-
bucano de Música e de diversos projetos
culturais. Em 2021, publicou seu primei-
ro livro Não é sobre você (Selo Mirada).
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PACÓJICIPADAM DESTA EDIÇÃO
Fotografias
Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro Produções.
Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista na premiação da
Revista BRAVO, Apuéê, 2011 (Curta) na AIC - Academia Internacional de
Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta Metragem) — premiado em edital da
TV Câmara e Música na Alma, 2013 -2014, sobre a música de rua Cubana,
com filmagens em Cuba e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias
da Psicanálise — Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No
Gargalo do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC / TV Brasil e em mais
16 países da América Latina Atualmente é co-produtora do documentário
A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É
produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e
Internacionais. Durante a pandemia, dirigiu a série Horizonte Cinza de um Coração Azul. Site:
www.cabeloduroproducoes.com. Fotografias p.14, p. 46 e 47.
Editoração
Taciana oliveira é cineasta, formada em comunicação social: rádio e
TV, defensora das causas sociais por vocação, coordena as revistas Lau-
delinas e Mirada e é editora de Selo do mesmo nome. Natural do Recife,
é leão com ascendente em leão e lua em virgem. Há anos protela o lança-
mento de seu primeiro livro, Coisa Perdida, mas um dia ele sai.
Design Editorial
, * | - Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa sem
E; senso de direção. Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado.
Vos Participa da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora.
“Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura &
LIBRAS (instagram (mliteraturalibras), escreve no Medium sob o
'* pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 2020),
livro de memórias. IG: ()ohmybecka
MIRADA